Redação sobre uberização do trabalho: guia completo

Aprenda a fazer uma redação sobre uberização do trabalho com argumentos prontos, repertório sociocultural e exemplos de introdução, desenvolvimento e proposta de intervenção. Envie seu texto para correção de redação com professores da Corrija-me.

Conteúdo produzido por Corrija-me - Correção de Redação Em Temas

Escrever uma redação sobre uberização do trabalho exige mais do que reclamar dos aplicativos de entrega. O tema pede repertório, dados e uma leitura crítica das novas relações de emprego no Brasil. E ele tem tudo para aparecer no Enem, na Fuvest e nos concursos, porque atravessa economia, saúde pública e direitos trabalhistas ao mesmo tempo.

Se você já pediu comida por aplicativo ou chamou um carro pelo celular, você conhece o assunto de perto. Só que conhecer não basta na hora da prova. Muita gente perde pontos na correção de redação por ficar no senso comum, sem apresentar repertórios para um bom embasamento. Neste post você vai encontrar os argumentos que funcionam na redação sobre uberização do trabalho, o repertório certo e trechos prontos para adaptar na sua redação Enem.

AS PERSPECTIVAS DA PRECARIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DO TRABALHADOR BRASILEIRO NA ERA DOS APLICATIVOS

A proposta oficial do tema

Antes de escrever, leia a proposta completa com calma. Você pode acessar e imprimir o tema completo aqui para treinar em folha, do jeito que acontece na prova.

AS PERSPECTIVAS DA PRECARIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DO TRABALHADOR BRASILEIRO NA ERA DOS APLICATIVOS

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema: As perspectivas da precarização das condições do trabalhador brasileiro na era dos aplicativos, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO 1

O avanço das plataformas digitais tem transformado significativamente as relações de trabalho, especialmente com a expansão dos chamados aplicativos de serviço. Nesse modelo, trabalhadores atuam como autônomos, sem vínculo empregatício formal, o que, embora proporcione flexibilidade de horários, também implica ausência de garantias básicas, como férias remuneradas, seguro-desemprego e proteção previdenciária. Essa dinâmica tem sido associada ao fenômeno da “uberização” do trabalho, caracterizado pela transferência de riscos e custos para o próprio trabalhador.
Além disso, a remuneração variável, atrelada à demanda e à avaliação dos usuários, contribui para a instabilidade financeira desses profissionais. Muitos trabalhadores precisam ampliar suas jornadas para garantir uma renda mínima, o que pode resultar em desgaste físico e mental. Nesse contexto, o trabalho, mediado por aplicativos, evidencia uma contradição: ao mesmo tempo em que representa uma alternativa de inserção econômica, também intensifica formas de vulnerabilidade laboral. Assim, a expansão desse modelo impõe desafios à regulamentação e à garantia de direitos, exigindo novas formas de proteção social compatíveis com as transformações do mundo do trabalho.

Fonte: ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

TEXTO 2

O trabalho mediado por plataformas digitais tem sido relacionado ao agravamento de problemas de saúde entre trabalhadores, especialmente devido à intensidade das jornadas e à ausência de proteção social. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), no relatório World Employment and Social Outlook: The role of digital labour platforms (2021), muitos trabalhadores de aplicativos enfrentam longas horas de trabalho para garantir renda suficiente, o que aumenta os níveis de fadiga e estresse. Esse cenário contribui diretamente para o desenvolvimento de transtornos mentais, como ansiedade e esgotamento profissional.
Além disso, a OIT destaca que a natureza desse tipo de atividade, frequentemente marcada por repetição de movimentos, permanência prolongada em uma mesma posição e pressão por produtividade, favorece o surgimento de doenças musculoesqueléticas. A falta de pausas regulares e de condições adequadas de trabalho também pode intensificar problemas como dores crônicas e distúrbios do sono. Assim, o modelo de trabalho por aplicativos não apenas redefine as relações laborais, mas também impõe riscos significativos à saúde física e mental dos trabalhadores.

Fonte: Organização Internacional do Trabalho (OIT). World Employment and Social Outlook: The role of digital labour platforms, 2021.

TEXTO 3

O crescimento do trabalho por aplicativos tem sido acompanhado pela difusão de discursos que valorizam a autonomia e a meritocracia, apresentando os trabalhadores como responsáveis diretos por seu próprio sucesso. Entretanto, análises sociológicas apontam que essa narrativa pode ocultar formas sofisticadas de controle e exploração. O sociólogo francês Pierre Bourdieu já criticava a ideia de meritocracia ao afirmar que ela tende a ignorar desigualdades estruturais, atribuindo ao indivíduo responsabilidades que não dependem exclusivamente de seu esforço.
No contexto das plataformas digitais, essa lógica se manifesta por meio de mecanismos como avaliações constantes, metas e incentivos que estimulam maior produtividade. Embora pareçam oferecer liberdade, esses sistemas são regulados por algoritmos que definem a distribuição de tarefas e a visibilidade dos trabalhadores, limitando sua autonomia real. Assim, o trabalhador é levado a intensificar sua jornada na tentativa de alcançar melhores ganhos, muitas vezes sem perceber que está inserido em um modelo que privilegia o lucro das plataformas.
Dessa forma, o discurso meritocrático funciona como uma estratégia de legitimação dessas relações, ao transformar a precarização em responsabilidade individual e enfraquecer a percepção de exploração no trabalho contemporâneo.

Fonte: BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.

TEXTO 4

A rotina de trabalhadores por aplicativo tem evidenciado as contradições entre a promessa de autonomia e a realidade de precarização. Em reportagem do jornal El País Brasil, um entregador relata que, para conseguir uma renda mínima, precisa permanecer conectado ao aplicativo por mais de 10 horas diárias, muitas vezes sem pausas adequadas para descanso ou alimentação. Segundo ele, embora exista a ideia de liberdade para escolher quando trabalhar, na prática, é necessário aceitar a maior quantidade possível de corridas ou entregas, sob o risco de ter menos chamadas ou ser penalizado pelo sistema.
O trabalhador também destaca a instabilidade dos ganhos, que variam conforme a demanda e os critérios definidos pela plataforma, os quais não são totalmente transparentes. Além disso, menciona a pressão constante por boas avaliações, já que notas baixas podem comprometer seu acesso ao trabalho. Esse cenário, segundo o relato, gera desgaste físico e emocional, além de insegurança financeira. Assim, a experiência vivida por trabalhadores de aplicativos revela que a suposta autonomia frequentemente se converte em jornadas intensas e condições fragilizadas, evidenciando os desafios enfrentados por esses profissionais no contexto contemporâneo.

Fonte: EL PAÍS BRASIL. “Trabalho mais de 10 horas por dia e não tenho garantias” – relatos de entregadores de aplicativo. Disponível em: https://brasil.elpais.com

Como interpretar o tema da redação sobre uberização do trabalho

Repare no recorte da proposta. Ela fala em perspectivas da precarização, ou seja, pede que você olhe para o futuro dessas relações de trabalho, e não apenas para o presente. Por isso, fugir do tema aqui é mais fácil do que parece. Quem escreve só sobre desemprego ou só sobre tecnologia perde o eixo central.

O termo “uberização” nomeia um modelo em que o trabalhador atua sem vínculo formal, arcando sozinho com combustível, manutenção, aposentadoria e risco de acidente. Na prática, a plataforma fica com o lucro e o profissional fica com a conta. Guardar essa definição ajuda a montar uma tese sólida logo no primeiro parágrafo.

Três argumentos para a redação sobre uberização do trabalho

1. A ausência de proteção social

Comece pelo argumento mais concreto. O trabalhador de aplicativo não tem férias remuneradas, décimo terceiro, seguro-desemprego nem contribuição previdenciária garantida pela empresa. Segundo o IBGE, o Brasil tinha cerca de 1,5 milhão de pessoas trabalhando por plataformas digitais em 2022. É gente suficiente para formar uma cidade média inteira sem rede de proteção.

Ricardo Antunes, em O privilégio da servidão, chama esse grupo de novo proletariado de serviços da era digital. Usar o sociólogo dá autoridade ao seu texto. Só tome cuidado para explicar a ideia com suas palavras, porque citação solta não pontua. Se você tem dúvidas sobre como encaixar referências assim, vale revisar os tipos de argumentos para usar na redação antes de treinar.

2. O impacto na saúde física e mental

Este é o argumento que mais rende desenvolvimento. Para garantir uma renda mínima, muitos entregadores permanecem conectados por mais de dez horas por dia, muitas vezes sem pausa para comer. O relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre plataformas digitais, publicado em 2021, associa essas jornadas longas ao aumento de fadiga, ansiedade e esgotamento profissional.

Além disso, há o desgaste do corpo. Permanecer horas na mesma posição e repetir movimentos favorece dores crônicas e problemas musculoesqueléticos. Ao mesmo tempo, a pressão por boas avaliações mantém o trabalhador em alerta constante. Ou seja, o cansaço não termina quando o aplicativo é desligado.

3. O discurso da meritocracia como disfarce

Aqui mora o argumento mais sofisticado, aquele que separa um texto mediano de um texto nota alta. As plataformas vendem autonomia e liberdade de horários. Na prática, algoritmos decidem quem recebe corridas, quem aparece primeiro e quem é penalizado. A escolha é uma ilusão bem construída.

Pierre Bourdieu criticava justamente essa lógica ao mostrar que a meritocracia ignora desigualdades estruturais e joga no indivíduo uma responsabilidade que não é só dele. Aplicado ao tema, o raciocínio mostra que a precarização vira “falta de esforço” aos olhos da sociedade. Isso enfraquece a percepção de exploração e adia qualquer regulamentação.

Repertório sociocultural para a redação sobre uberização do trabalho

Um bom repertório precisa dialogar com o argumento, nunca aparecer de enfeite. Para este tema, guarde estas quatro referências.

  1. Ricardo Antunes, sociólogo brasileiro que estuda o trabalho digital e a transferência de riscos para o trabalhador.
  2. Relatório da OIT (2021) sobre plataformas digitais, útil para sustentar dados de jornada e saúde.
  3. Constituição Federal de 1988, que estabelece o valor social do trabalho como fundamento da República.
  4. Filme “Você Não Estava Aqui”, de Ken Loach, que retrata a rotina de um entregador e o colapso familiar causado pela jornada.

Perceba que são fontes de áreas diferentes, o que enriquece a argumentação. Caso queira ampliar seu banco de referências para outros temas, veja também como aumentar o repertório sociocultural para a redação.

Exemplos práticos para a sua redação

Nada substitui ver o conteúdo aplicado. Os modelos abaixo mostram como estruturar uma redação sobre uberização do trabalho do começo ao fim. Abaixo estão modelos de trechos que você pode adaptar (jamais copiar palavra por palavra, porque a banca percebe).

Introdução

No filme “Você Não Estava Aqui”, de Ken Loach, um entregador acredita ter conquistado liberdade ao trabalhar por conta própria, mas termina refém de jornadas exaustivas. A obra antecipa as perspectivas da precarização das condições do trabalhador brasileiro na era dos aplicativos, marcada pela ausência de garantias trabalhistas e pelo controle exercido por algoritmos. Tal cenário decorre da fragilidade regulatória e do discurso meritocrático que naturaliza a exploração.

Desenvolvimento 1

Em primeiro lugar, verifica-se que a falta de amparo legal agrava a vulnerabilidade desses profissionais. Conforme aponta o sociólogo Ricardo Antunes, o novo proletariado de serviços assume individualmente os custos e os riscos da própria atividade, muitas vezes sem acesso a férias remuneradas, previdência ou seguro. Isso ocorre porque ainda falta uma regulamentação clara das plataformas digitais capaz de estabelecer vínculos trabalhistas mais justos e garantir direitos básicos a esses trabalhadores. Nesse contexto, os aplicativos acabam se beneficiando de uma mão de obra submetida a jornadas extensas, que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias, para alcançar uma remuneração minimamente satisfatória. Como consequência, esses profissionais permanecem expostos a condições precárias e, em casos de acidentes de trabalho, podem ser obrigados a arcar sozinhos com os prejuízos, já que a fragilidade do vínculo com as empresas dificulta o acesso à proteção e à responsabilização trabalhista.

Desenvolvimento 2

Além disso, é impressionante como o discurso meritocrático contribui para naturalizar a exploração desses trabalhadores. Empresas de plataformas digitais, muitas vezes respaldadas por influenciadores, difundem a ideia de que a uberização representa uma forma de liberdade profissional, na qual o indivíduo, supostamente senhor de si, pode escolher quando e quanto trabalhar, desfrutando de plena autonomia sobre a própria rotina. Contudo, essa perspectiva esconde uma lógica perversa: ao atribuir o sucesso exclusivamente ao esforço individual e ao número de horas trabalhadas, desconsideram-se as condições estruturais que precarizam essa atividade. Na prática, quem mais se beneficia desse modelo são as empresas proprietárias das plataformas, que ampliam seus lucros enquanto transferem custos e riscos para os trabalhadores responsáveis pela execução do serviço. Dessa forma, seduzido pela promessa de independência, o indivíduo pode não perceber plenamente a relação de exploração à qual está submetido, tornando-se refém de uma suposta autonomia que, muitas vezes, apenas mascara jornadas excessivas e ausência de proteção trabalhista.

Proposta de intervenção

Portanto, diante da precarização do trabalho por aplicativo, cabe ao Ministério do Trabalho e Emprego, pasta responsável por fiscalizar as relações laborais, em parceira com o Congresso Nacional, criar uma legislação específica para o trabalho por plataformas, por meio de audiências públicas com entregadores e motoristas, a fim de assegurar contribuição previdenciária, limite de jornada e transparência algorítmica. Assim, as perspectivas da precarização das condições do trabalhador brasileiro na era dos aplicativos darão lugar à dignidade prevista na Constituição.

Note como a proposta traz agente, ação, meio/modo, finalidade e detalhamento. Esse conjunto é o que garante os 200 pontos da competência 5. Para aprofundar essa parte, confira as 7 dicas para fazer uma proposta de intervenção que realmente pontua.

Assista e treine com o Japa da Redação

O professor Ricardo Assahi comenta a precarização do trabalho e o esgotamento profissional como possível tema de prova. Vale assistir antes de começar seu treino.

Temas ligados à tecnologia costumam andar juntos. Por isso, depois de treinar este, leia também sobre inteligência artificial e futuro do trabalho, que segue a mesma linha argumentativa.

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Citações para redação

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