Redação sobre desigualdade social no Brasil: guia

Descubra como fazer uma redação sobre desigualdade social no Brasil com argumentos históricos, dados do IBGE, repertório dos textos motivadores e exemplos de parágrafos prontos. Envie seu texto para correção de redação com professores.

Conteúdo produzido por Corrija-me - Correção de Redação Em Temas

Fazer uma boa redação sobre desigualdade social no Brasil exige mais do que indignação. Exige recorte, dado confiável e uma proposta de intervenção que saia do genérico. Esse é justamente o desafio do tema “A persistência da desigualdade social no Brasil do século XXI”, que cobra do estudante uma explicação para algo que atravessa séculos e continua de pé.

A boa notícia? Poucos temas rendem tanto repertório quanto esse. Só que muita gente escorrega ao repetir lugar-comum e se esquecer de inserir a palavra mais importante do enunciado, que é “persistência”. Neste guia, você vai ver como estruturar cada parágrafo, quais repertórios usam bem os textos motivadores e onde a correção de redação feita por um professor faz diferença real na sua nota da redação Enem.

A PERSISTÊNCIA DA DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI

O tema completo da proposta

Antes de escrever, leia a proposta na íntegra e sublinhe os textos motivadores. Você pode acessar e imprimir o tema completo direto no portal de temas da Corrija-me.

A PERSISTÊNCIA DA DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI

PROPOSTA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema: A persistência da desigualdade social no Brasil do século XXI, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO 1

Stefan Zweig, em Brasil, País do Futuro (1941), expressou uma visão otimista e inédita sobre o potencial do Brasil, mas essa leitura também foi interpretada e criticada por especialistas como uma projeção idealizada condicionada ao contexto histórico de sua escrita. Segundo análises acadêmicas, Zweig via no Brasil uma possibilidade de realização de valores humanísticos e cosmopolitas em contraste com a Europa devastada pela guerra e pelas ideologias racistas da época. Para ele, a miscigenação cultural e étnica, a cordialidade social e o aparente “novo começo” de uma sociedade plural representavam um terreno fértil para um futuro potencialmente mais harmonioso e livre de conflitos que destruíram o Velho Mundo.
Essa leitura, embora tenha sido considerada por alguns contemporâneos europeus, como excessivamente ufanista ou simplista, foi também interpretada como parte de um manifesto de esperança diante dos horrores do século XX, alinhado a uma agenda anti-racista e cosmopolita, que via no Brasil um espaço de experimentação sociocultural e promessa de uma sociedade diferente dos modelos europeus rigidamente hierárquicos.

Fonte: https://www.scielo.br/j/sant/a/VFMSdYbHVZPJ5VVBKvY4yDt/

TEXTO 2

A desigualdade de renda no Brasil é uma das mais elevadas do mundo e pode ser claramente observada pelo índice de Gini, um indicador que varia de 0 (perfeita igualdade) a 1 (máxima desigualdade).
Segundo dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o coeficiente de Gini da renda domiciliar per capita no Brasil ficou em 0,518 em 2023, repetindo o menor nível da série histórica, mas ainda indicando uma forte concentração de renda entre quem mais ganha e quem menos recebe. Isso significa que a distribuição de renda no país permanece bastante desigual, com os mais ricos detendo uma parcela muito maior da renda total em comparação com os mais pobres. Mesmo com avanços recentes e quedas observadas ao longo dos anos, esse valor ainda demonstra que a renda no Brasil está longe de ser distribuída de forma equitativa, e que políticas públicas voltadas à redução de desigualdades continuam sendo necessárias para promover inclusão social mais ampla.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) e Síntese de Indicadores Sociais (dados de 2023). Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br

TEXTO 3

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego como se fosse o último.

Fonte: BUARQUE, Chico. Construção. Álbum Construção. Rio de Janeiro: Philips Records, 1971.

TEXTO 4

Texto 4 - A PERSISTÊNCIA DA DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI

Como interpretar o tema da redação sobre desigualdade social no Brasil

O enunciado não pede que você prove que existe desigualdade. Isso já está dado. Ele pede que você explique por que ela persiste, mesmo depois de décadas de crescimento econômico, programas sociais e expansão do acesso à escola. Aí está o recorte que separa uma nota mediana de uma nota alta.

Na prática, o verbo muda sua tese. Em vez de escrever “o Brasil é desigual”, você escreve “a desigualdade brasileira se reproduz porque X e Y”. Por isso, cada parágrafo de desenvolvimento precisa apontar um mecanismo de reprodução, não apenas um sintoma. Fome, favela e trabalho precário são consequências. Herança escravocrata, tributação regressiva e escola pública sucateada são causas.

Outro detalhe que muitos candidatos ignoram está no recorte temporal. A proposta fala em “século XXI”. Ou seja, seu texto ganha força ao citar dados recentes e políticas atuais, ainda que a origem do problema seja colonial.

Três argumentos para a redação sobre desigualdade social no Brasil

Uma redação sobre desigualdade social no Brasil não precisa esgotar o assunto. Escolha dois dos três caminhos abaixo. Cada um dá conta de um parágrafo de desenvolvimento completo.

1. A herança da exclusão histórica

A abolição de 1888 libertou pessoas escravizadas sem qualquer política de acesso a terra, salário ou escola. Com isso, a população negra foi empurrada para a periferia das cidades e para o trabalho informal, situação que se reproduziu por gerações. Esse argumento conversa muito bem com temas correlatos, como você vê na nossa análise sobre cotas raciais.

2. A concentração de renda e a estrutura tributária

Segundo o IBGE, o índice de Gini da renda domiciliar per capita ficou em 0,518 em 2023, o menor patamar da série histórica e ainda assim altíssimo em comparação mundial. Além disso, o sistema tributário brasileiro cobra proporcionalmente mais de quem ganha menos, já que boa parte da arrecadação vem do consumo. Na prática, o pobre paga mais imposto em relação à sua renda do que o rico.

3. A desigualdade educacional que se autoalimenta

Quem estuda em escola sem estrutura chega ao mercado com menos qualificação, ganha menos e coloca os filhos na mesma escola. E o ciclo recomeça. Esse argumento funciona bem porque mostra o mecanismo de reprodução que o tema pede, em vez de descrever apenas o retrato da pobreza.

Repertório sociocultural para usar sem forçar

Toda boa redação sobre desigualdade social no Brasil precisa de referência externa bem amarrada. Seguem algumas referência para se somar ao seu conhecimento:

1. “Negro Drama”, dos Racionais MC’s

Lançada em 2002, a música “Negro Drama”, dos Racionais MC’s, retrata a experiência de indivíduos negros e periféricos diante de uma sociedade marcada pela desigualdade, pelo racismo e pela exclusão social. A canção evidencia como o lugar de nascimento e a condição socioeconômica podem determinar oportunidades distintas ao longo da vida, sobretudo no acesso à educação, ao mercado de trabalho e à própria segurança. Esse repertório é interessante porque permite demonstrar que a desigualdade brasileira não é apenas econômica, mas também possui dimensões históricas, raciais e territoriais. Dessa forma, pode ser usado para defender que moradores das periferias enfrentam obstáculos estruturais que dificultam a mobilidade social. Vale lembrar que canções funcionam muito bem como repertório, tanto que reunimos dez músicas que rendem ótimo repertório em outro post do blog.

2. “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert

O filme brasileiro Que Horas Ela Volta?, de 2015, apresenta a história de Val, uma empregada doméstica que vive na casa de uma família de classe alta em São Paulo. A narrativa evidencia uma relação aparentemente afetuosa entre patroa e empregada, mas revela uma série de barreiras sociais invisíveis que delimitam quais espaços cada indivíduo pode ocupar. Essa desigualdade fica ainda mais evidente com a chegada de Jéssica, filha de Val, que questiona essas regras e se recusa a aceitar naturalmente a posição de inferioridade destinada à mãe. O filme é excelente para discutir a ideia de que a desigualdade social brasileira é sustentada também pela naturalização de hierarquias sociais. Não se trata apenas de uma pessoa possuir mais dinheiro do que outra, mas de determinados grupos serem historicamente ensinados a aceitar posições subordinadas.

3. “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior

Publicado em 2019, Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, acompanha trabalhadores rurais de uma comunidade marcada pela pobreza, pela exploração da mão de obra e pela concentração fundiária. Os personagens trabalham durante décadas em terras que não lhes pertencem e enfrentam dificuldades para acessar condições básicas de cidadania. Esse repertório é particularmente interessante porque permite mostrar que a desigualdade brasileira não está limitada às grandes cidades. Ela também se manifesta no campo, especialmente por meio da concentração de terras, da precarização do trabalho e da dificuldade de acesso a direitos. Além disso, a obra estabelece uma ligação entre o passado escravocrata brasileiro e desigualdades que permanecem no século XXI, mostrando como estruturas históricas podem sobreviver mesmo após mudanças legislativas.

Se você quer ampliar seu banco de referências, veja também nossas dicas sobre como aumentar o repertório sociocultural.

Confira o nosso modelo

Nós trouxemos um modelo para você ter como um guia e não se perder:

Introdução

Na obra Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, somos apresentados à trajetória de uma comunidade rural no interior da Bahia, marcada pela herança da escravidão, pela exploração e pela desigualdade social. A narrativa evidencia como o preconceito racial e a permanência de estruturas históricas de exclusão dificultam o acesso dessa população a direitos e oportunidades. De forma análoga, o Brasil contemporâneo ainda convive com profundas desigualdades, sustentadas tanto pela dificuldade de superar marcas históricas do passado escravocrata quanto pela insuficiência de políticas públicas capazes de enfrentar, de maneira efetiva, os entraves à inclusão social.

Desenvolvimento

Em primeiro lugar, é premente analisar como se deu o processo de abolição da escravidão no Brasil. Durante mais de três séculos, a população negra foi submetida a condições extremas de exploração e, embora a liberdade jurídica tenha sido formalizada em 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, esse marco não foi acompanhado de políticas públicas capazes de garantir integração social, acesso à moradia, à educação e ao trabalho digno. Como consequência, grande parte dos ex-escravizados permaneceu à margem da sociedade, sobrevivendo por meio de ocupações precárias e sendo progressivamente empurrada para regiões periféricas, como ocorreu em áreas de morros no Rio de Janeiro. Dessa forma, percebe-se que a abolição incompleta contribuiu para a perpetuação de desigualdades raciais que ainda hoje estruturam parte significativa da segregação social brasileira.

Além disso, o poder público configura-se como um dos principais responsáveis pela manutenção das desigualdades no Brasil do século XXI. De acordo com a Constituição Federal de 1988, cabe ao Estado assegurar tratamento igualitário aos cidadãos e garantir condições mínimas para uma vida digna. Contudo, esse dever nem sempre se concretiza, sobretudo entre as camadas mais pobres, mais expostas à precariedade dos serviços públicos e à insuficiência de políticas de redistribuição de renda. Nesse cenário, a estrutura política e econômica brasileira ainda favorece grupos com maior poder de influência, enquanto parcelas vulneráveis encontram dificuldades para acessar direitos fundamentais. Um exemplo está no caráter regressivo da tributação brasileira, que pesa proporcionalmente mais sobre os mais pobres devido à incidência de impostos sobre o consumo. Dessa forma, a atuação insuficiente do Estado contribui para perpetuar as desigualdades econômicas.

Proposta de intervenção

Portanto, é imprescindível tomar medidas para garantir a igualdade entre os brasileiros. Assim sendo, é dever do Ministério da Igualdade Racial, junto à iniciativa privada, promover amplo projeto de revitalização das periferias das grandes cidades, a fim de constituir um espaço mais digno à moradia. Ademais, cabe ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em parceria com institutos federais, ampliar programas de qualificação profissional voltados a jovens de periferia. Isso pode ocorrer por meio de turmas noturnas gratuitas nas próprias escolas públicas, divulgadas por agentes comunitários de saúde, a fim de romper a persistência da desigualdade social no Brasil do século XXI. Com essas ações, espera-se trazer um cenário de maior igualdade no Brasil do século XXI.

Note que a intervenção traz agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Se essa parte ainda trava para você, vale conferir nossos três modelos de proposta de intervenção que funcionam em qualquer tema.

Erros que derrubam a nota na redação sobre desigualdade social no Brasil

  1. Culpar apenas o governo atual. O tema fala em persistência, então seu texto precisa de profundidade histórica.
  2. Usar dado inventado. Prefira fontes reais, como IBGE, Ipea e Inep. Número errado derruba a Competência 3.
  3. Ficar só na denúncia. Descrever a miséria sem explicar o mecanismo que a mantém rende texto raso.
  4. Propor intervenção vaga. “Investir em educação” não diz nada. Diga quem faz, como faz e com qual objetivo.
  5. Ferir os direitos humanos. Qualquer solução que criminalize a pobreza zera a Competência 5.

Assista antes de escrever

A obra “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, é um dos repertórios mais poderosos para esse tema, porque retrata a estratificação social brasileira dentro de um único quintal. Veja como aplicá-la no seu texto.

Citações para redação

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